Tenho um dragão que vive comigo.
Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitário
quanto eu, quando ele se vai.
Aprendi que um dragão sente certa dificuldade de se relacionar com outros
seres. Seja uma pessoa igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo,
hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres
mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não
que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e
submisso como uma gueixa, eles apenas não dividem seus hábitos.
Poucas pessoas são capazes de compreender um dragão. Eles quase nunca revelam o
que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e
isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, mas é
mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões)
sempre batem a cauda três vezes, como se estivessem furiosos, soltando fogo
pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco
metros? Acho que ele faz isso pra que no fim só restasse eu, ele e as cinzas. Cinzas
são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra
destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar
entre essa zona oculta e a mais mundana.
Percebo ás vezes que os dragões não querem
ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas,
inventamos. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e
nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu
paraíso é o conflito, nunca a harmonia.
Um dragão nunca acha que está errado. Tudo que faz, e que pode parecer
perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é
apenas parte dessa estranha natureza dos dragões.
Eles são seres invisíveis às vezes, você
sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda
tem paciência? Quando ele não está presente eu posso senti-lo, mesmo a
quilômetros de distância, mesmo sem poder vê-lo. E se você disser que isso é impossível,
ele rirá. Você o achará talvez até irônico. Ele olhará pra você e perguntará: “Então
você só acredita naquilo que vê?” Se você disser que sim ele falará em unicórnios,
salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros, fadas, átomos, buracos
negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E dirá, com aquele ar levemente
pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os
dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não
é visível".
Eu aprendi um jeito de perceber quando o
dragão está ao meu lado, mesmo em épocas distantes. Os dragões param sempre do
lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar ao meu
lado fica leve, de uma coloração vagamente negra, sinal que ele esta feliz. Sorríamos
suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde de junho - esse é
o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os
dragões sabem transmitir.
Ele cheira a hortelã e alecrim, cheiro de manha no campo. Quando chega, o
apartamento inteiro fica impregnado desse perfume.
Nos dias que antecedem a sua chegada, eu
acordo no meio da noite, o coração disparado e sem saber por que, nas manhãs
seguintes, compulsivamente eu começo a comprar flores, limpar a casa, ir ao
supermercado para encher o apartamento de rosas e chocolates (os dragões adoram comer chocolate, mesmo passando mal depois). Tudo fica mais feliz, e meu coração dispara
quando aquele cheiro de alecrim e hortelã começa a ficar mais forte, escorregando
que nem brisa por baixo da porta e se instalando devagarzinho no corredor de entrada,
no sofá da sala, no banheiro, na minha cama.
Por situações como essa eu o amo, muito, e
sempre me sinto um pouco incompleta quando ele vai embora e é sempre um alivio
quando ele retorna pra perto.
Quando ele vai, dormindo ou acordada, eu recebo sua partida como um súbito
soco no peito, olho para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer
coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios, nunca os achei nada, nunca vi nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.
Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta
depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes, sem mais reflexos negros pelos
cantos, nem perfume de ervas pelo ar, a vontade de ser feliz dentro da gente
fica apertadinha misturada com sintoma de saudades.
Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando
luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas negras,
solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum.
E então quando a saudade aperta mais saio à procura de ilusões como o cheiro
das ervas ou reflexos negros de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los,
mesmo apenas na mente, torno-me então outra vez capaz de afirmar, como num
vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo.
E hoje, vinte e cinco meses depois que esse
dragão apareceu na minha vida, eu ainda sinto a falta dele, ainda sinto a
distância que nos separa fisicamente, mas também sinto a sintonia que sempre
nos aproxima, meu coração ainda acelera quando o cheiro de alecrim e hortelã se
mistura com o meu perfume de jasmim, e eu sinto dentro do meu coração, como é incrível
viver com um dragão. Mesmo com todos os problemas que ele causa e seu gênio difícil,
ainda é infinito o prazer que sinto ao ser aconchegada dentro dos seus braços.
Feliz 25 meses Bo ♥
Te amo muito muito
muito ♥
Serendipity ♥
* Texto baseado na obra de Caio Fernando de Abreu: Os dragões não conhecem o paraíso.