quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Síndrome dos Vinte e Poucos Anos


Fico olhando essa folha em branco e pensando no que rabiscar, no que contar,  no que gritar. (mais velha a cada segundo...).
Lembro-me do Gato de Cheshire dizendo a Alice que quando você não sabe aonde ir, qualquer direção serve, e às vezes eu fico assim meio parada olhando as placas de sinalização que não fazem mais sentido nenhum. Há árvores retorcidas na beira da estrada e o caminho já não é tão belo como antes, atrás só existem lembranças e não há volta...é preciso seguir em frente.
A realidade por vezes é exasperante. "Eu não nasci para viver neste tempo, sou sensível demais...".
Às vezes acho isso um pouco injusto, não há ensaios, nada se pode fazer quando algo dá errado, é preciso somente continuar...e continuar. É apenas uma vez e o resto é saudade. Fazemos elucubrações teóricas sobre a vida, sobre o tempo, sobre o amor. E depois o tempo passa...
Hoje só queria calçar os pés com o Universo e arranhar o mundo, “O Universo só deseja ser notado” assim como nós queremos passar nessa vida deixando nossa marca, nosso emblema, um pedaço daquilo que outrora fomos...hoje eu só quero que minha alma comungue em paz com a alma do mundo, não faz diferenças as cicatrizes, não faz diferenças as dores, é tudo prova do meu esforço e dos meus passos. Talvez eu seja pura metafísica, e na verdade esse Eu não exista
O Coelho atrasado acena a certa distância, eu sorrio e aceno de volta, dessa vez o chá com bolinhos vai ter que esperar.
O sorriso se ilumina, um fragmento de estrela brilhando na escuridão dos dias. Pressinto todas as catástrofes do mundo, mas mesmo assim continuo...continuo a chorar com livros, a sonhar com Peter Pan, a colecionar filmes e musicais, a procurar arco-íris nos dias chuvosos, a ouvir músicas bonitas, a tatuar símbolos, a celebrar as estações, a amar incondicionalmente os seres vivos...continuo a sonhar...continuo...

Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria."

[Frida Kahlo]



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


"Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair"

CFA

domingo, 17 de fevereiro de 2013


“...Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança...
Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a me sentir mal. O triste, o sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus. Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei!...”

Kurt Cobain

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


“Por isso às vezes ela cansa e senta um pouco pra chorar.
Que dia! Puxa…
Pra que tanta vida pra gente desanimar”

Chico Buarque


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


“Queria ser de novo menina, meio selvagem, atrevida e livre!
Rindo quando me ofendiam, em vez de ficar louca por causa de uma injúria!
Por que mudei tanto? Porque meu sangue fica numa agitação diabólica com quaisquer duas palavras?”

O morro dos ventos uivantes - Emily Bronte


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O ladrão de almas desesperadas


Pra começar meu relato devo dizer que alguns não me consideram um ladrão, pois afinal, ladrão é aquele que rouba um objeto de alguém, pega sem consentimento, então literalmente eu não sou um ladrão, eu sempre peço antes de pegar, e quando as coisas estão perdidas eu me aproprio delas, afinal já dizia o ditado achado não é roubado.
Prefiro justificar minha profissão como algo que traz alivio as pessoas, seria eu um anjo, um demônio ou um xamã muito poderoso, ou quem sabe o melhor amigo que um desesperado pode ter. Mas eles preferem me chamar de ladrão, tudo bem, que assim seja, não vou me abster em nomenclaturas.
Eu vago pela noite de bar em bar, visito hospitais, asilos, orfanatos, casebres, mas engana-se quem pensa que somente nesses lugares existem almas para ser pegas, eu visito palácios, casas familiares com cachorros, gatos e brinquedos, as almas desesperadas por vezes estão nos lugares em que menos esperamos. Está no rosto da menina mais linda, ou da menina mais inteligente, no rosto do garoto popular ou daquele que sempre está contando uma piada pra alegrar o ambiente. E com o passar do tempo às almas desesperadas estão aumentando.
É engraçado isso, achei que com o passar dos séculos as coisas melhorariam, hoje todos têm a sonhada liberdade de expressão, tecnologias avançadas, curas pras doenças, mas penso que os seres humanos estão regredindo, eles estão cada vez mais só, cada vez mais voltados ao próprio umbigo e aos próprios problemas, seres desesperados que procuram abrigo em redes sociais, festas, bens materiais, mas não conseguem estar bem consigo mesmo em apenas 10 segundos de solidão.
É aí que eu entro, cada vez mais jovens em seus 10 segundos de solidão me procuram, gritam meu nome em alto som implorando pra que eu leve sua alma, sua jovem alma que ainda não viveu nada, mas que acarreta um peso tão grande em si mesmo que ele prefere viver sem ela, mesmo que isso traga sérias consequências como não conseguir mais sentir nada. E eles não querem sentir, eles só querem viver, viver mecanicamente suas vidas sem um sentimento de alegria, paz, tristeza ou amor. E eu vendo muitas vezes esses jovens cheios de vida implorando pra que eu leve suas almas me compadeço de sua tristeza, e digo que o verdadeiro alivio pras seus corações está dentro de si mesmo, não fora, mas eles não ouvem, e isso é um mal desse novo século, ninguém mais ouve um conselho, ninguém mais ouve um amigo, ninguém mais ouve a si mesmo, seus corações não falam mais, todos têm suas próprias crenças e ilusões do que significa a vida, e não precisam mais ouvir nada. Crianças tolas, eu penso, suspiro, tiro o baú de dentro do casaco preto e em um minuto a alma está guardado dentro dele, deixo o jovem dormindo em sua cama e amanha tudo estará bem, ele pensará que foi um sonho e seu cérebro o guiará para o melhor caminho, e algum dia quem sabe, quando ele quiser ouvir seu coração perceberá que é tarde demais, pois um coração não fala sem uma alma.
Minha vida se resume nisso, eu roubo almas, não roubo, mas as guardo, são meus tesouros, pessoas colecionam livros, figurinhas, latinhas, brinquedos...eu coleciono almas. Não sei quando isso começou, talvez quando eu era bem jovem, não me lembro, só me lembro que desde que minha primeira alma foi conquistada eu não mais envelheci, nem uma ruga, nem um cabelo branco, acho que elas me fortalecem, ou quem sabe, exista mesmo alguma força superior que precisa de mim nesse trabalho, não sei.  Nunca tive o desejo da vida eterna, como eu disse no começo, às vezes me vejo como um anjo ou um demônio, dando as pessoas exatamente o que elas querem, mas no fundo do meu coração eu sinto compaixão por elas, sinto por vê-las assim, mas sinto também que não posso fazer nada, são as escolhas que movem o mundo, elas fizeram as delas e eu faço as minhas. É assim que deve ser.
Durante a noite o trabalho é mais pesado, quase não tenho tempo pra descansar, mas quando o dia nasce poucas almas se desesperam. A maioria volta à rotina de trabalho, estudo, estudo, trabalho, e eu, bem eu vou ver o nascer do sol. Gosto do nascer e do por do sol, gosto de vê-lo cada dia de um lugar diferente, um dia prefiro vê-lo nascendo no mar, outro dia se pondo nas montanhas, um dia gosto de vê-lo nascendo em meio às areias do deserto e se pondo entre a neve branca. Acho que isso é um dos maiores prazeres do meu trabalho, posso me locomover com o pensamento, isso e os livros. Durante séculos aprendi o grande mundo mágico dos livros, e eles são meus companheiros nos dias de solidão que se seguem sem fim.
Às vezes penso que vou ficar desesperado com essa vida que levo, aí me pergunto, se eu ficar desesperado quem virá roubar minha alma, quem virá pra ficar no meu lugar? Mas me acalmo em seguida, é só fechar os olhos e conversar com meu coração, ele sempre me dá as respostas que preciso, e sempre me conforta nas horas em que me sinto alterar.
Algum dia quem sabe eu consiga me aposentar, acredito que falta pouco pra pílula anti-desespero ser inventada, ou uma injeção com validade de um ano que inibe seus sentimentos, ou uma pastilha com o seu gosto favorito que deixa feliz por 24h...quem sabe!
Bom pra terminar, eu gostaria de deixar um conselho, quem sabe um conselho escrito alcance mais pessoas e elas entendam o sentido daquilo que sempre lhes falo:
Escute mais seu coração, converse mais, viva intensamente cada momento, veja o nascer e o por do sol, seja amigo e seja verdadeiro, observe o instante mágico dos dias, observe a vida que segue e que cada dia se extingue um pouco mais, suas vidas são como ampulhetas, a areia não para de descer e o tempo não para de correr, não deixe pra perceber o real sentido das coisas quando a areia estiver quase no fim. Mas se mesmo assim, ainda não conseguir ficar 10 segundos consigo mesmo, olhando dentro de você e se encarando no espelho, me chame, basta gritar meu nome em alto som que eu apareço pra levar sua alma, pois na realidade eu acredito que você não é merecedor dela.

Atenciosamente.

O ladrão de almas desesperadas.